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Quando uma pessoa recebe um diagnóstico terminal de uma doença, é hora de rever alguns pensamentos. A esperança em torno da cura precisa se transformar em aceitação. E a prioridade passa a ser criar condições e conforto para uma despedida o menos dolorosa possível. Para estes casos, costuma-se recorrer aos cuidados paliativos, uma especialidade médica geralmente associada à geriatria, mas que ganha outras dimensões na área da oncologia, já que o câncer não escolhe idade para aparecer.

Os cuidados paliativos foram conceituados oficialmente pela Organização Mundial de Saúde em 1990. Segundo a definição, eles representam o cuidado ativo e total dos pacientes cuja doença não responde mais a tratamentos curativos. O objetivo maior é controlar a dor e outros sintomas associados, além de problemas sociais e espirituais. Assim, se pode garantir a melhor qualidade de vida possível aos pacientes e suas famílias. Os cuidados paliativos também buscam levar as pessoas a perceber a morte como mais uma etapa natural da existência e se fazer entender como procedimentos que não antecipam e nem adiam o fim da vida.

Para cumprir com estes fundamentos, as equipes são invariavelmente multidisciplinares. Possuem médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, farmacêuticos e assistentes sociais, entre outros profissionais. A estrutura é necessária para dar um acompanhamento global aos pacientes e familiares em todas as etapas: diagnóstico, tratamento, morte e processo de luto. “Não se deve acionar a equipe de cuidados paliativos apenas quando não há mais perspectiva de cura. Ela deve estar presente sempre, associada ao médico que cuidou do paciente durante toda a evolução da doença”, explica a médica Cristiane Maués, especialista em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com formação complementar em Cuidados Paliativos e integrante da equipe de Clínica Médica do HSM Diagnóstico, em Belém.

O protocolo atende doenças crônico-degenerativas como demências (Alzheimer, por exemplo), insuficiências cardíacas, doenças pulmonares, renais e AIDS. Mas, dentro desse contexto, o caso do câncer merece atenção especial por não ser uma doença necessariamente associada a uma faixa etária avançada. Jovens, adolescentes e até crianças podem precisar de cuidados paliativos. “É nos pacientes oncológicos que  esta  especialidade é mais indicada, por se tratar de doença eminentemente ameaçadora a continuidade de vida. Para pacientes com câncer, o momento do diagnóstico é sempre difícil, pois é quando se precisa de suporte emocional para enfrentar o período de tratamento e as adaptações ao adoecer, e muitas das vezes essa evolução é rápida e desfavorável”, explica a geriatra Laiane Dias, que também tem formação complementar em Cuidados Paliativos pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e faz parte da equipe de Clínica Médica do HSM Diagnóstico.

Em ação, os cuidados paliativos funcionam primariamente com os sintomas comuns ao câncer: dor, náusea, vômito e mal estar, entre outros. Nessas horas, é  importante o respeito absoluto ao que diz o paciente. “Se ele fala que está com dor, nós nem questionamos, por mais que ele esteja sorrindo ao nos dizer. Nós aplicamos a medicação para aliviar essa dor”, explica a médica Cristiane Maués. Além disso, uma parte muito importante desses procedimentos não está prescrito em receitas e nem descrito em bulas: o diálogo. “Precisamos ajudar o paciente no enfrentamento de seus problemas espirituais e de pendências existenciais, caso ele demonstre esta necessidade durante as conversas. É fundamental que ele possa morrer com dignidade e com sua autonomia preservada”, conta. “Precisamos dar atenção sempre aos aspectos psicossocias e espirituais quem vêm junto com o processo de doença, que, quando não devidamente abordados, também podem piorar a qualidade de vida do paciente”, completa Laiane Dias.

Os cuidados paliativos também adotam um procedimento chamado ortotanásia, que consiste em proporcionar ao paciente terminal uma morte natural, sem interferência da ciência e sem o prolongamento do sofrimento. No entanto, este é um ponto polêmico. “Até alguns profissionais confundem o trabalho dos cuidados paliativos com a eutanásia, mas não é a mesma coisa. A ortotanásia não significa abreviar a vida ou antecipar a morte, e sim deixar que este processo tenha a sua evolução natural, sem fazer com que o paciente tenha uma sobrevida baseada em sofrimento”, explica a médica Cristiane Maués. “Muitos pacientes têm seu sofrimento prolongado quando ficam por muito tempo com aparelhos de suporte de vida (como tubos, respirador e sondas),  sem benefício algum para sua doença de base e apenas aumentando a sobrevida  sem qualidade de vida. Em cuidados paliativos, o objetivo é dar um tratamento de suporte que alivie o sofrimento para que o paciente tenha morte digna”, completa Laiane Dias.

Para mais informações sobre o assunto, acesse o site da Academia Nacional de Cuidados Paliativos: http://www.paliativo.org.br.